Sparagmós
  

Agora conto

 

As one

 

Havia duas aldeias, unidas por uma ponte de madeira.

Os homens da aldeia A casavam-se com as mulheres da aldeia B, assim como as mulheres da aldeia A casavam-se com os homens da aldeia B.

Todos eram livres para escolher. Todas as mulheres de ambas aldeias eram idênticas umas às outras, o que ocorria também entre todos os homens, e nem sempre as escolhas coincidiam.

Assim, uma mulher que escolhia um homem era por vezes escolhida por um outro homem.

Segundo as regras que regiam a vida de ambas as aldeias, os escolhidos não poderiam rejeitar seus pretendentes. Como forma de compatibilizar direito e dever, era comum a bigamia e até a poligamia.

Se não havia diferença entre os homens, tampouco entre as mulheres, era comum que, por exemplo, uma mulher já casada com vários homens acabasse por se relacionar com outros homens, supondo ser os seus.

Com o passar do tempo, todos tendiam a estar casados com todos.

Permanecia em aberto, contudo, a decisão acerca de qual sistema de regras deveriam os habitantes das duas aldeias seguir: se o sistema da aldeia A ou o sistema da aldeia B.

Os sistemas eram idênticos um ao outro, o que não resolvia a questão, pois prevalecia entre os oriundos de uma e outra aldeia uma espécie de etnocentrismo abstrato, oco de conteúdo.

Conta-se que, em um determinado ponto de suas histórias, os casais que viviam na aldeia A e os que viviam na aldeia B foram se insinuando em direção à ponte e ali ficaram.

Segundo alguns, ruíram juntamente com a ponte rumo ao fundo do abismo; segundo outros, a ponte não caiu; outros ainda asseguram que, caída a ponte de madeira, os corpos de homens e mulheres tomaram seu lugar.

Eu não creio em nenhuma dessas versões, no entanto não tenho outra para contar.



Escrito por mscudder às 22h12
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Agora conto

 

Holy Hollywood

 

– Filmes americanos são horríveis.

– E belos.

– Uma tristeza.

– E me fazem chorar.

– Gratuitos.

– E eu pago sem reclamar.

– Ridículos.

– E me fazem rir.

– Um atentado à inteligência.

– E me fazem pensar.

– Banais.

– E me tiram do cotidiano.

– Uma porcaria.

– E me lavam a alma.

– Alienantes.

– E me falam de tudo.

– Apelativos.

– E eu atendo.

– Superficiais.

– Que nem a pele é a película.

– Arte de quinta.

– E sexta, sábado, domingo.



Escrito por mscudder às 23h56
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Agora conto

 

The same old ground

 

 

– Quanto falta?

– Em passos ou quilômetros?

– Tanto faz.

– De fato, tanto faz.

– Estou esgotado.

– E quase não avançou.

– Mas me resta pouco tempo.

– De fato, pouco tempo.

– Se eu tomar como base meu rendimento até aqui...

– E creio que deve fazê-lo.

– No entanto...

– Sim...

– Não chegarei, então.

– Se na verdade nem bem partiu...

– O sr. diz isso sem dó.

– Ou prazer. Talvez o prazer dos enunciados categóricos.

– A morte é triste.

– Sim, a sua companheira de jornada.

– A que nunca empreendi.

– E agora se encerra.



Escrito por mscudder às 00h28
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Agora conto

 

Rolling stone

 

Wade through – curti esse verbo na voz de Mick Jagger e cantei junto como se fosse meu.

Vivê-lo, porém, é outra coisa, certamente feita para outros.

Wade through uma crise econômica mundial; wade through uma relação muito difícil; wade through os anos de um emprego chato; wade through – tô fora.

Por isso, não aprendi a jogar xadrez e não agüento os infindáveis menus da net e do atendimento telefônico.

Wade through é para Mann, Joyce, Tólstoi.

No meu caso, começo é fim, fim começo.

Like this little confession, another kind of hello goodbye.



Escrito por mscudder às 22h06
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Agora conto

 

Papai

 

 

Os anos da grande crise ficaram conhecidos simplesmente como "Os Anos".

E eu nunca decidi se deveria ou não ser grato a eles. Afinal me ensinaram a vida, e a vida é tudo o que somos. Contudo, ensinaram também que não somos grande coisa, e que somos sim coisas, quem sabe as piores.

Por rigoroso senso de justiça, não posso negar o valor daquele espírito de superação que percebi vez ou outra em meu pai. Mas seu comparecimento foi raro e o que prevaleceu foi o miasma da decomposição geral.

Meus filhos nasceram em outra época e minha mulher é pouco mais que estupidez. Não compreenderiam as horas de tensa observação dedicadas por alguns sobreviventes a esses templos que agrupam e dispersam o corpo incomensurável do nosso deus-dinheiro.



Escrito por mscudder às 22h23
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Convite

 

Amigas e amigos queridos,

No dia 5/12/2008, às 14h, ocorrerá a defesa (e meio-de-campo e ataque) de minha tese de doutorado, intitulada O sagrado à deriva: arcaísmo e modernidade da literatura.

Deverá ser no próprio departamento de Teoria Literária e Literaturas (TEL), da UnB.

Gostaria muito de contar com a presença de vocês.

Obrigado.

Manoel Rodrigues.



Escrito por mscudder às 11h15
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Brasília – Postal 2

 

O monstro avança sobre o avião.

Isso também foi planejado, ou ninguém mais vê?



Escrito por mscudder às 08h31
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Agora conto

 

Sidharta

 

 

Velho e cego, contratei um aio a quem perguntava a cor do dia.

– Rosa – e eu me fazia rosa.

– Azul – e eu correspondia.

Não tardou, tornei-me o arco-íris.

– Gostaria de me ver assim.

– Falta pouco até que olho e luz sejam um.

– Serei feliz?

– Não será o senhor.



Escrito por mscudder às 08h28
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Brasília – Postal 1

 

103/104 sul.

Avião despressurizado: entram vento, folhas e ansiada água.

Num dia como esse Heidegger, enfim, compreendeu sua filosofia.



Escrito por mscudder às 00h29
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Convite

 

Amigas e amigos queridos,

No dia 5/12/2008, às 14h, ocorrerá a defesa (e meio-de-campo e ataque) de minha tese de doutorado, intitulada O sagrado à deriva: arcaísmo e modernidade da literatura.

Deverá ser no próprio departamento de Teoria Literária e Literaturas (TEL), da UnB.

Gostaria muito de contar com a presença de vocês.

Obrigado.

Manoel Rodrigues.



Escrito por mscudder às 00h25
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Agora conto

 

Bastão

 

Antes de Irene, eu não conhecia cor som cheiro dor amor ódio tudo.

Era esporo ou vaga possibilidade.

Não foi minha primeira mulher e sim a porta do mundo.

Irene partiu deixando um homem inteiro, curado até dos vexames de um aprendizado tardio.

Quando eu ando descalço no fim da tarde, bebê em manjedoura e serragem, o céu me oferece uma hóstia carmim. E foi com Irene que eu aprendi, nessa hora, a ser o que diz: agora é minha vez.



Escrito por mscudder às 00h13
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Agora conto

 

Sabá

 

O conferencista falou falou falou.

E falou bem.

Conhecia a essência e o acidente; o profundo e o extenso; o texto e o contexto.

Já ela nem foi – só ouvia noite preta e lembrança de anteontem.



Escrito por mscudder às 23h55
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Agora conto

 

A portrait of the artist

 

Compus uma canção perfeita, ao menos assim acharam crítica e público.

Ganhei dinheiro e parei de trabalhar.

Perfeita também minha nova vida: corria, lia e trepava.

Mas o mundo é quase sempre desajuste: contundi o joelho, me cansei dos livros e as mulheres de mim.

Na lanchonete aonde eu às vezes ia, um menino perguntou – moeda sem valor lançada em poço sem fundo: – Você não é o fulano?

Eu não tinha o que dizer, nem ele quis ouvir.



Escrito por mscudder às 09h03
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Agora conto

 

The questions run too deep

 

Rumores de crise.

O chefe: – A ordem é enxugar!

E me enxugaram, gelo-pus, e mulher e filhos (ela me acusava?).

O ralo – antes longínquo do chão e abstrato dos livros – se aproximou, não eu dele, com  mil bocarras imundas.

(Se eu reagisse, isto seria uma história?).



Escrito por mscudder às 12h09
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Agora conto

 

O ser-tempo

 

No relacionamento que mantinha com minha mulher, era a ficção de viver com outra que governava.

Eu traduzia a parole de cheiro, gestos, textura, voz para minha langue do amor.

O acordo entre realidade e desejo me pacificou e, pacificado, me entreguei. Foi assim que os fatores se inverteram: passei a amar a mulher de carne e osso.

Fui ao campo e chorei o passado até o fim.

Conjecturei que minha mulher estivesse ciente de tudo desde o princípio e tivesse sabido esperar e que deveria amá-la ainda mais por isso; ou talvez repudiá-la.

Mas qualquer hipótese pouco dizia perante um estranho tempo de ser.



Escrito por mscudder às 06h31
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BRASIL, Centro-Oeste, NUCLEO BANDEIRANTE, SETOR DE MANSOES PARK WAY, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Livros, Esportes

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