Sparagmós
   Qual é o pó?


Ontem, Mauro Cezar Pereira, um dos melhores comentaristas da mídia esportiva, teceu considerações acerca da derrota do Flu e de Renato Gaúcho que me pareceram duras demais.

Sou um crítico implacável dos vitoriosos de véspera e disse, aqui, que o espírito de já-ganhou rondava as Laranjeiras.

Mas, convenhamos: o Flu jogou bem e meteu 3 x 1 na LDU. Foi muito mal nos pênaltis, mas isso não tira o mérito de sua boa exibição na maior parte do tempo de bola rolando.

Mauro citou os erros de planejamento e o clima de festa do último treino. Hoje, no Bate-Bola, completou lembrando que os equatorenhos se beneficiaram das mesmas falhas e facilidades que o flu demonstrou em Quito.

PVC, outro bom comentarista, que, por vezes, peca pelo excesso de esquematismo e a falta de uma observação mais atenta, destacou, com propriedade, que um Ênio Andrade teria se valido de um senso estratégico mais apurado.

Mas cada um é cada um.

Qual o segredo do bom trabalho que Renato, desde o tempo de Vasco, desenvolve como treinador?

Renato foi um ótimo jogador. Parece ter um talento especial para unir jogadores, fazê-los cooperar à base de suas diferentes características, deixá-los à vontade para dar o seu melhor - do ponto de vista pessoal, inclusive, porque ele não onera os jogadores com o moralismo tão comum entre outros treinadores.

É fraco em disciplina? Não parece. É fraco em estratégia? Talvez.

É certo, contudo, que é um treinador ainda com pouco experiência. Quando inexperientes, temos normalmente a tendência de confirmar nossas virtudes e defeitos. É como se cada um de nós dissesse: - Sou assim e pronto; sobretudo os mais românticos, idealistas e obstinados, entre nós.

A experiência nos faz aprimorar as virtudes e minorar os efeitos mais deletérios de nossos defeitos.

Ênio Andrade era um mestre da estratégia. Seus times jogavam com disciplina e rigor.

Renato, provavelmente, nunca o alcançará nesse quesito. Porém, esse Gaúcho, mais mascarado, meninão, aos 45 anos, e inveterado língua-solta talvez tenha méritos que alguns outros bons treinadores jamais venham a alcançar e que fizeram o Flu de ontem empolgar, em alguns momentos do jogo, não somente sua torcida, mas também membros da Liga dos Urubus e de outras ligas rivais.

Escrito por mscudder às 14h51
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A Espanha ganha

 

"Ih, demorou", diria a gíria já quase em desuso.

Pois é, a Espanha sagrou-se campeã. Por quê?

O óbvio: foi mais time na final.

Um pouco além do óbvio: foi mais time durante a competição inteira.

Mais além: é mais time que a Alemanha.

O discurso dominante afirma que a Alemanha ganha títulos por causa de disciplina tática, força física e frieza. Esse argumento não considera a importância da técnica.

Não acompanhei outras Eurocopas e não posso comentar outros títulos continentais conquistados pela Alemanha. Tomemos, então, os títulos mundiais.

Em 1974, a Alemanha foi campeã porque era disciplinada, forte, fria e tecnicamente excelente. Alguns jogadores, como Beckenbauer e Breitner eram extraordinários.

Em 1990, a Alemanha foi campeã porque era DFF. Não era grande coisa tecnicamente, mas ninguém era. Eis o segredo: não dá para ser campeão quando, no aspecto técnico, se é relativamente fraco.

Foi por isso que a Itália, cuja escola tem muitas semelhanças com a alemã, não conseguiu ser campeã em casa, naquela Copa de 1990. Foi por isso que a Alemanha, também jogando em casa, não ganhou em 2006.

O pragmatismo de Alemanha e Itália é suficiente para levá-las, com assombrosa freqüência, às semifinais e mesmo às finais das competições. Mas não basta para fazê-las ganhar os torneios.

Gostei muito da Espanha, e achei que ela, sim, era a favorita para vencer a final, porque é um time muito mais equilibrado: defende-se bem, arma muito bem e finaliza com alta qualidade. Ali, todo mundo joga, todo mundo marca. Sem falar que é uma equipe experiente, calejada por muitos fracassos, recentes e remotos.

A Alemanha foi bem, nesta Eurocopa, inclusive tecnicamente; mas a Espanha foi melhor, inclusive tática e psicologicamente.

As superpotências do futebol – Alemanha, Itália, Brasil e Argentina – que abram o olho: em 2010, vão precisar de mais que calculismo, as duas primeiras, e habilidade, as outras duas, para derrotar a Espanha.



Escrito por mscudder às 09h52
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