Sparagmós
  

Engatados no passado

Com a palavra, FHC.

Sobre o que ele fala?

O passado, claro, como convém ao líder de um partido sem futuro.

Dilma rebate.

Sobre o que ela fala?

O passado, ainda que recente.

É óbvio: o PT também não tem futuro.

Somos há muito tempo um país de renda média.

Somos também um país incivilizado: índices estratosféricos de criminalidade violenta e sistema educacional calamitoso provam-no à larga.

O meio caminho andado rumo ao desenvolvimento, somado a um atraso renitente, exige o debate qualificado sobre os próximos passos.

Maso que os protagonistas rançosos de nossa política discutem?

O blá blá blá do "eu fiz isso e aquilo e aquiloutro, por isso sou o melhor".

Certo, credibilidade depende de currículo.

Mas, atenção: quem ajudou a trazer o Brasil até este misto de aurora e crepúsculo, de desenvolvimento e caos, pode não ter as melhores condições de contribuir para que o país, enfim, chegue à luz do dia da prosperidade, de um mínimo de harmonia social, da generalização da educação básica, da sustentabilidade ambiental etc.

Não sou eu que digo que PSDB e PT não têm mais o que dizer.

São eles que, espontaneamente, silenciam quando o assunto é projeto, programa, utopia.

Mas isso não é o pior.

O pior, o pior, o pior, putz grila, o pior...

Pô, vocês sabem o que é o pior?

O pior é que a gente não consegue juntar meia dúzia de gatos pintados para botar para correr os gatos pardos dessa longa noite da política brasileira.



Escrito por Manoel Rodrigues às 19h38
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A sina do ensino

Dizem que os dois problemas básicos da educação básica brasileira são a repetência e a evasão.

Eu digo que esses dois problemas são apenas um: a evasão.

É que a evasão ocorre em dois tempos:

1.º tempo: o aluno se evade de algumas aulas ou de várias aulas, mas ainda não da escola.

2.º tempo: o aluno se evade da escola.

Entre o primeiro e o segundo tempo, ocorre a repetência.

A repetência instila no aluno o desânimo e a sensação de inaptidão para o estudo.

Por que ocorrem a evasão incipiente, ou seja, a evasão de parte das aulas e a evasão plena, ou seja, a evasão da escola?

Obviamente, por desinteresse do aluno.

Por que o aluno se desinteressa da escola?

1) Muitas escolas públicas são verdadeiros pardieiros.

2) Muitos professores não estão minimamente qualificados a ministrar boas aulas.

3) Quase todos os professores ganham muito mal e muitos deles se sentem desmotivados; por isso, não ministram boas aulas, mesmo quando têm qualificação para isso.

4) Muitos professores, mesmo bem-qualificados e muito dedicados, não conseguem conquistar o respeito do aluno e despertar seu interesse pelo estudo, porque, por ganharem muito mal, são vistos como exemplos de fracasso social.

5) Porque os conteúdos são ministrados com metodologia inadequada, à base do monólogo e da mera repetição.

6) Porque os conteúdos do ensino médio, onde a evasão aberta é mais grave, nem sempre são adequados, pois pressupõem que todos os alunos devam cursar a universidade, quando deveria haver, ao lado das escolas "comuns", escolas de ensino médio exclusivamente voltadas para quem não vai fazer universidade. Os Ifets, pelo visto, não estão conseguindo desempenhar plenamente esse papel.

7) Porque, em época de estagnação econômica, o aluno não vê utilidade alguma no estudo, já que ele acredita que não vai conseguir emprego mesmo, e cai no ócio improdutivo; ou, em época de aquecimento econômico, são muitas as oportunidades de trabalho, sobretudo no mercado de trabalho informal, e o aluno se seduz com a possibilidade de entrar, ainda que pela porta dos fundos, no mercado consumidor, além de poder ajudar a família com as despesas básicas. Enquanto isso, uma porção de vagas que exigem mais estudo e qualificação – na agricultura, na indústria, nos serviços – ficam ociosas.

8) Porque o conhecimento, o crescimento intelectual, a educação etc. não desfrutam de muito prestígio em nossa cultura.

Os fatores de 1 a 6 dizem respeito à oferta educacional no Brasil, que, em muitos e muitos casos, é muito ruim.

Os fatores 7 e 8 dizem respeito à demanda.

Pecamos na oferta e na demanda.

É claro que, quando a oferta é boa, ela impacta positivamente a demanda: todos sabem, por exemplo, que boas aulas despertam, em muitos, a vontade de aprender e estudar.

Todavia, a demanda não pode depender somente da oferta; a demanda por educação precisa ser, ao menos até certo ponto, autônoma.

Ou seja, se é verdade que o Estado precisa ser mais efetivo na prestação de educação de boa qualidade, a sociedade também precisa ser mais efetiva na busca por educação.

Por exemplo: se as pessoas no Brasil comprassem mais livros e menos aparelhos de TV, os livros seriam mais baratos e as pessoas, aproveitando-se de um preço menor, poderiam comprar mais livros.

Se lessem os livros que comprassem, as pessoas seriam intelectualmente mais cultivadas e pessoas mais cultivadas são mais exigentes em tudo, que dirá em termos educacionais.

Se fossem mais exigentes em termos educacionais, exigiriam dos governantes mais e melhor educação e acabariam elegendo governantes mais sintonizados com mais e melhor educação.

O que nos leva de novo ao que eu disse há alguns dias: as políticas públicas no Brasil se ocupam somente – quando se ocupam – da educação pelo lado da oferta; não há, ou quase não há, política pública no Brasil que incida sobre a demanda.

Precisamos ensinar o povo a querer aprender.



Escrito por Manoel Rodrigues às 08h47
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Dobradinha bem dobradinha e guardadinha

Um amigo provoca: – E a dobradinha Aécio/Ciro?

Quê?!

Pois é, Serra pularia fora e deixaria o campo livre para uma aliança PSDB/PSB.

Eu cravo (viche, sempre que cravo, dá ferradura...): Eduardo Campos, presidente nacional do PSB, gosta muito, mas muito de Aécio.

Mas gosta mais de Lula.

Gostar aqui significa: avaliar que convém muito mais ficar com Lula.

Quem levantou essa lebre foi Fernando Rodrigues, na Folha.

Essa lebre está erguida (embora andasse esquecida) desde 2008.

Acho que Fernando Rodrigues fala de uma chapa que ele apoiaria.

Assim, isso está menos para comentário do que para torcida.

Ou é uma ajudinha que ele está dando ao Ciro: uma especulação desse tipo enche a bola de Ciro, ao mantê-lo em evidência e mostrar a sua eventual capacidade de mudar os rumos do pleito.

Mas, como disse, acho que Eduardo Campos não quer.

Então...



Escrito por Manoel Rodrigues às 16h42
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Ah! é, sô?

Só Aécio, de vice, pode salvar Serra de uma derrota para Dilma.

O problema, do ponto de vista de Aécio, é esse "pode".

Como senador, ele não precisará, pelo menos não o tempo todo, ser anti-Dilma nem pró-Serra.

Será, na oposição ou na situação, um senador de grande destaque e relativa independência.

Já, como vice de Serra, poderá abocanhar uma parte boa do poder.

Mas se perder?

Um Aécio sem mandato terá pouca projeção.

Por outro lado, Aécio pode pensar: – Se Dilma vencer, o monopólio lulista da polítca brasileira se reafirma, se fortalece e ameaça se eternizar.

E, na esteira do lulismo, renasce, aos trancos e barrancos, o petismo.

Pode faltar espaço para Aécio.

Aécio quer, um dia, ser presidente.

Impedir a vitória de Dilma pode ser a melhor aposta.

Mas, atenção: é só uma aposta.

Será que ele encara?



Escrito por Manoel Rodrigues às 11h36
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Um corvo chamado Ciro

Por que Lula não quer Ciro?

Porque a sabedoria popular ensina que quem cria corvos acaba de olhos furados.

Lula adora Ciro.

Mas adora um Ciro de asas cortadas, sem condições de voos maiores.

Se Ciro cresce muito, pode impedir Dilma de chegar ao segundo turno (poderia, pelo menos, antes de sua abandonada pré-candidatura ter se desidratado tanto).

Se Ciro cresce muito, pode vir a ser, numa retirada de candidatura de Serra (ainda cogitada ou especulada), o adversário de Dilma no segundo turno.

Se Ciro cresce muito, mesmo chegando em terceiro lugar, pode acabar apoiando Serra no segundo turno, ou vender caro demais para o gosto lulista o apoio a Dilma.

Se ganha as eleições, ninguém segura o corvo Ciro, livre então para voar e bicar, à revelia do São Lula.

Lula não é bobo.

Ele sabe que, para manter o monopólio da política brasileira, deve impedir a candidatura Ciro.

Já amargou o lançamento da candidatura de Marina.

Outro corvo ele não cria mais.



Escrito por Manoel Rodrigues às 18h26
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Misto frio

 

O Ministério da Cultura cuida das artes e da cultura popular.

O Ministério da Educação cuida do sistema de ensino.

O Ministério da Ciência e Tecnologia cuida do sistema de pesquisa.

Quem cuida da expansão e fortalecimento da cultura letrada, no Brasil?

Ninguém.

Ingenuamente, muitas pessoas afirmam que a cultura letrada não é mais forte no país somente por causa da pouca oferta, o que determinaria a elitização do acesso à cultura letrada.

Há, de fato, pouca oferta; de fato, o melhor dessa oferta é proibitivamente caro.

Mas atenção: o problema não é somente de oferta, é também de demanda.

Demandamos pouco e demandamos mal, quando se trata de cultura letrada.

Dito de outro modo: não somos uma sociedade e uma cultura que tenha como características proeminentes o amor aos livros e a dedicação ao consumo e à produção de conhecimento.

Somos, ainda, marcadamente uma sociedade do entretenimento, do pequeno esforço intelectual e da valorização excessiva do gregarismo.

Com tanto entretenimento e tantos encontros, com amigos, parentes etc., não sobra tempo para o esforço intelectual.

O bate-papo, na internet inclusive, precisa ceder terreno à solidão do estudo.

Uma população que tem pouca afeição pelo conhecimento não demanda, tanto quanto deveria, oportunidades para aprender.

E, quando demanda, muitas vezes demanda mal.

Fui professor (ainda sou?) durante mais de dez anos, e digo que poucas coisas me frustraram tanto e me fizeram desinvestir na minha atuação docente como o interesse intelectual nulo ou ínfimo de vários de meus alunos.

Frustrante também era a dificuldade de muitos de formular questões minimante relevantes e consistentes.

O Brasil precisa de instituições que instiguem a população a se interessar mais e melhor pelo estudo e pelo conhecimento.

O Brasil precisa de instituições que fustiguem a população ao esforço intelectual.

Ou seja: precisamos de instituições que ajudem o povo a despertar para a tarefa de se ajudar.

Sem um povo educado (e autoeducante), ficaremos para sempre nesse misto de "estamos melhorando" e "estamos piorando", que a leitura dos jornais nos revela diariamente.

 



Escrito por Manoel Rodrigues às 18h15
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Convite conciso

Ciro mandou Zé Dirceu pastar.

Parabéns, Ciro!

Não que eu ache o estilo machão e as palavras rudes muito adequados para a vida pública.

Mas Ciro revela que sabe quem é quem na política brasileira.

Zé Dirceu é um homem do passado, um homem da luta de classes, do maniqueísmo, da política feita com rancor e excesso de agressividade.

Ciro cresceu ainda mais no meu conceito.

Se tivesse em seu discurso uma abordagem ambiental consistente, seria um candidato fenomenal.

Complementa Marina, que, se tivesse em seu discurso uma abordagem econômica consistente, voltada ao desenvolvimento, seria uma candidata fenomenal.

São superiores a Dilma e Serra no que se refere à capacidade de renovar a agenda política do país.

Mas até agora não passaram muito disso.

O PSB poderia ter investido numa chapa Marina/Ciro ou numa chapa Ciro/Marina.

Teria marcado um gol de placa.

Não quis... paciência.

Acho que Ciro está prestes a sair de cena.

Com a sugestão feita a Zé Dirceu, sai com dignidade.

Espero que mantenha não somente a dignidade, mas também a compostura e não perca a cabeça em mais um estouro, quando chegar a hora de apagar as luzes de sua candidatura.



Escrito por Manoel Rodrigues às 15h03
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Um cisne chamado Ciro

Ciro entoou seu canto.

O belo canto de quem pressente o fim.

Um canto testamento, de quem sabe que o Brasil não é só Lula e FHC.

Ciro quer ser candidato a presidente.

Mas acho que não vai ser.

É pena.

Enriqueceria a vida política nacional.

Se não tivesse ficado às moscas, teria até chances de vencer.

Mas o PSB não o adotou.

E Lula odeia concorrência.

Assim, ele sairá de cena.

Melancolicamente, talvez.

Ciro tem seus defeitos: é descontrolado e imprevisível.

É, porém, um político do tipo profeta.

Não sou contra os políticos do tipo profeta.

Lula, por exemplo, é um político do tipo profeta, e isso é o que ele tem de melhor.

Na minha opinião, precisamos de políticos do tipo profeta.

Serra não é profeta.

Dilma também não.

Um e outro têm mais perfil de presidente de banco estatal ou presidente da Vale.

Marina é outra do tipo profetisa.

O profeta Ciro será calado.

A profetisa Marina será pouco ouvida.

E os gerentões se enfrentarão no centro do palco da nossa vida política.

A política brasileira precisa de profetas.

Precisa também de instituições sólidas.

Os profetas dinamizam as instituições.

As instituições estabilizam os profetas.

Serra e Dilma não dispõem nem da profecia nem do espírito institucional.

Representam, sim, grupos foscos e toscos.

Dilma ainda mais que Serra.

E é ela quem, provavelmente, vai ganhar.

Esconjuro.



Escrito por Manoel Rodrigues às 18h37
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Com siso, sem Ciro

Dizem que a última pesquisa CNT/Sensus reforça a necessidade de manutenção da candidatura de Ciro, se o objetivo é derrotar Serra.

Não, não reforça.

A pesquisa, na verdade, reitera o que todas as outras pesquisas já apontaram: Serra é, por enquanto, o principal herdeiro das intenções de voto em Ciro, no caso de uma desistência do político do PSB.

Ao mesmo tempo, Dilma cresceu muito e já se mostra como uma candidata viábilíssima, sobretudo num segundo turno contra Serra (o prognóstico é, por enquanto, de 44% para o tucano, contra 37%, da petista).

É certo que, por enquanto, a saída de Ciro daria a Serra a vitória já no primeiro turno.

Mas o que as pesquisas inequivocamente mostram é um avassalador crescimento da transferência Lula-Dilma, cujo apogeu está longe de ser atingido.

Lula, Dilma e o PT têm todos os motivos para crer que, à medida que o tempo passe, a maioria dos lulistas se convertam em dilmistas.

Uma evolução nesses termos garantiria a Dilma, já no primeiro turno, se não a dianteira, uma proximidade de Serra terrivelmente incômoda para o tucano, e um segundo turno certamente vitorioso.

Lula está prestes a garantir mais uma vitória eleitoral à Presidência. Mais que isso: está conseguindo perpetuar o monopólio que exerce já há algum tempo na política brasileira.

Esconjuro.



Escrito por Manoel Rodrigues às 13h54
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A flora do Fórum

Deu hoje na Folha: Fernando de Barros e Silva espinafra o Fórum Social Mundial.

Precisa dizer mais alguma coisa?

Segue a íntegra do texto:


Que esquerda é essa?

SÃO PAULO - Como retrato da esquerda, o Fórum Social Mundial nos oferece uma imagem melancólica. De um lado, o evento, encerrado ontem, se presta a ser um palco de aclamação do lulismo; de outro, reitera sem mais dogmas anticapitalistas, fazendo tabula rasa do legado ruinoso dos experimentos coletivistas do século 20.
Em sua 10ª edição, o fórum agrega uma esquerda que transita entre o novo pragmatismo e a utopia de antigamente, sem que se detenha na crítica de nenhum dos polos. Adesista e fundamentalista ao mesmo tempo, essa esquerda age como quem quer usufruir todos os benefícios possíveis deste mundo (lulista), sem prejuízo de manter intacto o clichê do "outro mundo possível".
Entre o radicalismo vazio e o apego ao poder, haveria uma trilha menos cômoda. Algo como o compromisso com a redução das desigualdades, com o combate à corrupção em todas as suas formas e a defesa da democracia e do pluralismo -tudo combinado numa perspectiva reformista, que se paute pelo realismo sem abrir mão de princípios.
Não é isso, como se sabe, o que seduz os funcionários da utopia. Mas que esquerda é essa que vira as costas aos estudantes venezuelanos e não se manifesta contra a escalada autoritária de Chávez? Que esquerda é essa, para quem o mensalão não existiu ou acha que "a vida é assim mesmo"? Que esquerda é essa, capaz de defender a barba de Fidel Castro e o bigode de José Sarney?
Não há dúvida de que existe uma maioria bem intencionada entre os participantes do fórum. Mas o evento se tornou coisa de profissionais. Com raríssimas exceções, os intelectuais que contam não perdem mais tempo por lá. Restou um lúmpen "pensante" que fez do fórum o seu negócio. Gente, aliás, que cansou de esperar Godot e hoje enche as burras à custa do lulismo. São parasitas do Estado que adoram ressuscitar o fantasma neoliberal diante de plateias embasbacadas para manter viva a sua boquinha. Será possível ainda ser de esquerda sem parecer idiota ou espertalhão?



Escrito por Manoel Rodrigues às 17h20
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Quantos cabem na cabeceira?

 

Por que Lula quer Ciro fora da disputa presidencial?

Alguns acham que é porque Lula acredita que a saída de Ciro aumenta as chances de vitória de Dilma.

Não, não é isso.

Lula não quer Ciro porque Lula só quer Lula, e Dilma é Lula, e Lula é tudo o que ela é.

Uma candidatura Ciro significa isto: o Brasil não é só Lula, o Brasil pode sonhar com outras possibilidades, agir em outras direções.

Por isso, candidaturas como as de Ciro e Marina não lhe agradam.

Mas Lula está feliz, porque a candidatura de Ciro decai e a de Marina não decola.

E um Ciro sem chances tende a abandonar a disputa.

Quanto a Marina, paciência...; ademais, ela terá um tempo ínfimo de TV e poderá não vir a ser mais que um grito débil na imensidão.

Estive em Alcântara, no Maranhão. Lá, um pobre homem, com a minha idade, mas sem dentes, sem um olho (destruído pela catarata), sem instrução nenhuma, chamou Lula de papai. Assim mesmo: papai.

E Ciro é um filho malcriado que fala sem autorização do pai.

Deve se calar.



Escrito por Manoel Rodrigues às 23h09
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O idílio dos falsos ídolos

Por que a maioria das forças políticas – partidos, sindicatos, movimentos sociais, ongs, lideranças avulsas – está em crise de identidade?

Porque lhes faltam ideais, ideias e idoneidade.

Ideais são fundamentos, princípios, utopias.

Ideias são diagnósticos conjunturais, propostas concretas, sugestões interessantes para o presente.

Idoneidade é a devida compostura, o decoro, a coerência razoável entre prática e retórica.

Prevalece como norteador de suas ações uma versão pútrida do Id, que meio nietzscheanamente se guiaria por uma vontade de poder medíocre, saciada com a ocupação e utilização autointeressada dos cargos de nossa sempre abortada república.

Vocês viram a carta do Pedro Passos na Época?

Céus!...

E isso logo numa unidade da federação com um IDH tão alto.

E isso numa época em que tantos se incluem digitalmente, ainda que pela porta dos fundos dos sites de bate-papo e entretenimento, numa época em que tantos têm o seu Id (em inglês, pronuncia-se "ai di").

Numa época em que, às vezes, só resta o jus lamentandi do "ai de mim".



Escrito por Manoel Rodrigues às 11h03
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Safemo-nos da entressafra

Estamos numa terrível entressafra da política nacional.

O PMDB, velho cadáver insepulto, à exceção do que produzem uns poucos quadros de respeito, espalha seus miasmas na República.

O PSDB já deu sua contribuição à melhora da gestão econômica.

O PT esgotou seu discurso socioeconômico; enquanto isso, André Singer tenta refundá-lo, agora em bases populistas.

Conseguirá?

O restante da esquerda mantém-se exangue como apêndice do lulismo.

Quem sabe não surge uma esperança em Brasília.

Quem sabe, depois da inviabilização da candidatura de Arruda, com as dificuldades legais e eleitorais de Roriz e a hesitação de Agnelo (além das suspeitas que pairam sobre seu eventual envolvimento em esquemas ilegais), quem sabe não surge uma alternativa.

Quem sabe, um governo voltado à inovação científico-tecnológica, à melhora da educação, à sustentabilidade ambiental...

Quem sabe...

Seria uma referência viva para o Brasil.

Seria o começo do fim da entressafra.

Quem sabe...



Escrito por Manoel Rodrigues às 13h44
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Escandindo a Escandinávia

Três desafios fundamentais atravessam a nossa história republicana:

a) vencer o atraso científico, tecnológico e econômico;

b) diminuir drasticamente a desigualdade social;

c) inibir a promiscuidade entre o espaço público e o privado.

Nos últimos tempos, duas outras questões ganharam proeminência:

a) a eficiência da gestão do Estado e a qualidade na prestação dos serviços públicos; e

b) a sustentabilidade ambiental.

Nenhum desses desafios é assumido com a devida seriedade e competência pelas forças políticas do país; todos eles recebem dos partidos e lideranças um tratamento, digamos, meia boca.

Recentemente, temos visto quicar a bola da improbidade, do privilégio, da simbiose do privado com o público.

Quem trata politicamente do problema?

Afora algumas lideranças, somente comentaristas midiáticos, que, convenhamos, também deixam muito a desejar.

Partido? Nenhum.

Isso é triste.

Explicação?

É débil entre nós uma linha de orientação política que concilie espírito republicano, democracia, justiça social, crescimento econômico e sustentabilidade ambiental.

Essa conciliação não é impossível.

Mais uma vez, sugiro: com todos os problemas que apresenta, que tal dar uma olhada no que ocorre na Escandinávia?

Pergunto de novo: não estaria ali uma boa sugestão, não de ponto de chegada, mas de ponto de partida?



Escrito por Manoel Rodrigues às 13h04
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Dilma x Dilma

O bloguismo é um impressionismo.

E os erros de previsão que a gente comete com base em impressões são impressionantes.

Há uns dois meses, minha impressão era de que, por mais que Serra se mostrasse competitivo, Dilma viraria o jogo, nem que fosse no último segundo das eleições de 2010.

Em favor desse prognóstico, milita uma pesquisa do Datafolha que revela um empate técnico entre, de um lado, as intenções de votar em Serra; de outro, as intenções de votar em Dilma somadas às intenções de votar em quem Lula mandar.

Porém, uma notícia vem do Chile: a presidenta 80% não fez seu sucessor.

O que permite especular que, no Brasil, o presidente + de 80% possa também não fazer sua sucessora.

Dilma é para Lula o que, segundo Machado de Assis, Luísa, protagonista de O primo Basílio, era para Eça de Queirós.

Em carta ao português, o escritor brasileiro acusava o colega de ter criado não uma heroína, mas um mero marionete, um joguete nas mãos das circunstâncias.

Machado sentenciou: Luísa não tem personalidade, não tem alma, não tem vontade própria, não tem ação.

Como Dilma.

Dilma é um centro-avante para quem todo o time joga; porém, não faz um gol, um golzinho sequer.

Continuo achando que Dilma é a favorita das eleições.

Continuo achando que Serra vai vender caro a derrota.

Mas o grande adversário de Dilma é um inimigo muito íntimo: ela própria.



Escrito por Manoel Rodrigues às 08h58
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BRASIL, Centro-Oeste, NUCLEO BANDEIRANTE, SETOR DE MANSOES PARK WAY, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Livros, Esportes

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