Sparagmós
   Qual é o pó?


Ontem, Mauro Cezar Pereira, um dos melhores comentaristas da mídia esportiva, teceu considerações acerca da derrota do Flu e de Renato Gaúcho que me pareceram duras demais.

Sou um crítico implacável dos vitoriosos de véspera e disse, aqui, que o espírito de já-ganhou rondava as Laranjeiras.

Mas, convenhamos: o Flu jogou bem e meteu 3 x 1 na LDU. Foi muito mal nos pênaltis, mas isso não tira o mérito de sua boa exibição na maior parte do tempo de bola rolando.

Mauro citou os erros de planejamento e o clima de festa do último treino. Hoje, no Bate-Bola, completou lembrando que os equatorenhos se beneficiaram das mesmas falhas e facilidades que o flu demonstrou em Quito.

PVC, outro bom comentarista, que, por vezes, peca pelo excesso de esquematismo e a falta de uma observação mais atenta, destacou, com propriedade, que um Ênio Andrade teria se valido de um senso estratégico mais apurado.

Mas cada um é cada um.

Qual o segredo do bom trabalho que Renato, desde o tempo de Vasco, desenvolve como treinador?

Renato foi um ótimo jogador. Parece ter um talento especial para unir jogadores, fazê-los cooperar à base de suas diferentes características, deixá-los à vontade para dar o seu melhor - do ponto de vista pessoal, inclusive, porque ele não onera os jogadores com o moralismo tão comum entre outros treinadores.

É fraco em disciplina? Não parece. É fraco em estratégia? Talvez.

É certo, contudo, que é um treinador ainda com pouco experiência. Quando inexperientes, temos normalmente a tendência de confirmar nossas virtudes e defeitos. É como se cada um de nós dissesse: - Sou assim e pronto; sobretudo os mais românticos, idealistas e obstinados, entre nós.

A experiência nos faz aprimorar as virtudes e minorar os efeitos mais deletérios de nossos defeitos.

Ênio Andrade era um mestre da estratégia. Seus times jogavam com disciplina e rigor.

Renato, provavelmente, nunca o alcançará nesse quesito. Porém, esse Gaúcho, mais mascarado, meninão, aos 45 anos, e inveterado língua-solta talvez tenha méritos que alguns outros bons treinadores jamais venham a alcançar e que fizeram o Flu de ontem empolgar, em alguns momentos do jogo, não somente sua torcida, mas também membros da Liga dos Urubus e de outras ligas rivais.

Escrito por mscudder às 14h51
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A Espanha ganha

 

"Ih, demorou", diria a gíria já quase em desuso.

Pois é, a Espanha sagrou-se campeã. Por quê?

O óbvio: foi mais time na final.

Um pouco além do óbvio: foi mais time durante a competição inteira.

Mais além: é mais time que a Alemanha.

O discurso dominante afirma que a Alemanha ganha títulos por causa de disciplina tática, força física e frieza. Esse argumento não considera a importância da técnica.

Não acompanhei outras Eurocopas e não posso comentar outros títulos continentais conquistados pela Alemanha. Tomemos, então, os títulos mundiais.

Em 1974, a Alemanha foi campeã porque era disciplinada, forte, fria e tecnicamente excelente. Alguns jogadores, como Beckenbauer e Breitner eram extraordinários.

Em 1990, a Alemanha foi campeã porque era DFF. Não era grande coisa tecnicamente, mas ninguém era. Eis o segredo: não dá para ser campeão quando, no aspecto técnico, se é relativamente fraco.

Foi por isso que a Itália, cuja escola tem muitas semelhanças com a alemã, não conseguiu ser campeã em casa, naquela Copa de 1990. Foi por isso que a Alemanha, também jogando em casa, não ganhou em 2006.

O pragmatismo de Alemanha e Itália é suficiente para levá-las, com assombrosa freqüência, às semifinais e mesmo às finais das competições. Mas não basta para fazê-las ganhar os torneios.

Gostei muito da Espanha, e achei que ela, sim, era a favorita para vencer a final, porque é um time muito mais equilibrado: defende-se bem, arma muito bem e finaliza com alta qualidade. Ali, todo mundo joga, todo mundo marca. Sem falar que é uma equipe experiente, calejada por muitos fracassos, recentes e remotos.

A Alemanha foi bem, nesta Eurocopa, inclusive tecnicamente; mas a Espanha foi melhor, inclusive tática e psicologicamente.

As superpotências do futebol – Alemanha, Itália, Brasil e Argentina – que abram o olho: em 2010, vão precisar de mais que calculismo, as duas primeiras, e habilidade, as outras duas, para derrotar a Espanha.



Escrito por mscudder às 09h52
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De O livro de aforismos de Jamie P. Dawson

 

É indispensável observar, compreender, questionar, elaborar fundamentos; entretanto, mesmo no trabalho intelectual, os fundamentos não são tudo – às vezes, nem chegam a ser o mais importante.



Escrito por mscudder às 11h38
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Davidiano

Davi está na fase dos porquês.

Se me perguntasse por que Portugal perdeu para a Alemanha, eu diria: os alemães deram o seu melhor, os portugueses não.

O melhor da Alemanha é o foco na vitória; a defesa, o lance de bola parada e o contra-ataque exercidos segundo padrões mais ou menos automatizados; o corpo-a-corpo desgastante para os adversários.

Mas os alemães são também, sempre ou quase sempre, bons ou muito bons tecnicamente. Não é uma técnica plástica, flexível, inventiva, como a de brasileiros e argentinos, por exemplo. Mas é técnica.

Podolski, Klose, Ballack, Lahm, Schweinsteiger não são criativos nem têm ginga, porém passam, chutam e cabeceiam com muita competência. Isso é técnica.

Há ainda muita técnica, não só tática, no modo como os alemães marcam. Desarmar e bloquear o caminho a um adversário no mano-a-mano é técnica.

O treinador entra com a combinação dos posicionamentos, mas a forma individual de se posicionar diante do jogador que tem a bola, de modo a impedir sua progressão, depende de técnica. Se o treinador entender de técnica de marcação, poderá ajudar o jogador nesse quesito; se, contudo, só entender de tática defensiva, não terá o que dizer.

O melhor de Portugal (certamente, não o seu único ponto forte) se chama Cristiano Ronaldo. Eis aí um jogador tecnicamente extraordinário, no trato com a bola, que infelizmente não usou até o limite (ou além desse limite) a sua técnica.

Como termo de comparação, cito a performance de Ronaldinho Gaúcho num jogo contra o Milan, em Barcelona, pela Liga dos Campeões da Europa, em 2006. O Milan jogou trancado, deu o seu melhor na marcação e, diga-se de passagem, bateu muito. RG não se intimidou, jogou no seu limite, superou seus limites, até fazer um gol no final do jogo e dar a vitória ao Barça.

Poucas vezes, no jogo contra a Alemanha, CR "partiu pra cima". Deveria, até certo ponto, ter transformado a partida num duelo particular com seus marcadores – obviamente, com o aval do técnico (talvez Felipão tenha dado esse aval) e a participação de todo o time, que deveria estar alerta para as sobras de bola, nas vezes em que os dribles e chutes de CR não obtivessem êxito.

É claro que bastaria a defesa e o goleiro Ricardo não terem falhado bisonhamente no primeiro e no terceiro gol da Alemanha – mesmo com a falta cometida por Ballack, no último gol alemão, sua cabeçada era defensável. Talvez fosse suficiente Portugal ter um centro-avante melhor; ou Deco não ter conduzido tanto a bola; ou Nani ter rendido mais; ou Simão não ter estado tão mal.

Me concentro no caso de CR apenas para frisar o seguinte: sua atitude em campo, especialmente quando atua pela Seleção de Portugal e mais especialmente em seus jogos decisivos, não está à altura de seu talento excepcional. Mas ele é jovem e pode evoluir. Tomara que isso ocorra.



Escrito por mscudder às 11h35
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Hoy

 

Em 1978, Coutinho ignorou Sócrates, barrou Falcão no Brasil e Zico, já durante a Copa da Argentina. Batista foi convertido num brucutu.

Em 1990, Lazaroni barrou Neto, o maior jogador brasileiro em atuação no país, numa época em que havia ainda relativamente poucos brasileiros atuando fora.

Em 1994, Parreira levou Romário de última hora e transformou Raí num burocrata.

Coutinho usou como argumento a modernização do futebol, especialmente, o crescimento de importância da tática e da preparação física. Lazaroni e Parreira acrescentaram a necessidade de pôr fim ao jejum de títulos mundiais.

Coutinho se redimiu com o carrossel rubro-negro, o Fla que viria a ser campeão mundial sob o comando de Carpegiani. Um time dinâmico, envolvente, um dos mais belos da história.

Parreira inventou a modernidade estática, o avesso da modernidade propriamente dita. Coutinho já havia tentado o mesmo em 1978, obrigando Batista a jogar deitado, aplicando carrinhos e tocando para o lado. Nada, porém, comparável ao cera-ceradeira Zinho, que retinha a bola rodopiando e olhando para o chão – tudo para não entregar a bola ao adversário, tudo para evitar que a partida fugisse do controle, tudo por nada.

Dunga segue os passos dos mestres, em especial, do mais fraco dos três: Sebastião Lazaroni. Gratidão a quem o levou à Copa pela primeira vez e iniciou uma história sem fim, a chamada Era Dunga.

Qual a razão dessa "modernização" do nosso futebol? Títulos, ora.

Seu modelo é uma mistura da filosofia alemã (não a de Kant e Heidegger, óbvio) com a italiana: muita disciplina, retranca, marcação, jogada ensaiada, pragmatismo, coletivismo.

Itália e Alemanha juntas têm 7 títulos, chegaram, somadas, a treze finais e ficaram 18 vezes entre os 4 primeiros. Somente em 4, das 18 Copas, uma ou outra não chegou pelo menos em 4.º.

Mas e Brasil e Argentina?

Ora, ora, nós e nuestros hermanos não fizemos tão feio. Temos também 7 títulos, chegamos, somados, a 11 finais, ficamos 13 vezes entre os 4 primeiros. Somente em 5 Copas, nem Brasil nem Argentina constavam pelo menos em 4.º lugar.

Tudo bem, em 1978, a Argentina ganhou na mão grande; e em 1994, nosso time não se parecia conosco. Porém, em compensação, em duas Copas, as de 1978 e 1990, poderíamos ter vencido, não fosse a desfiguração medonha do nosso futebol.

Em resumo: somos muito competitivos, mesmo quando somos autênticos.

Aonde eu quero chegar? Nisto: a Seleçãozinha de Dunga é só de Dunga.

Hoje vou torcer pela Argentina.



Escrito por mscudder às 09h24
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Eles

 

Me bateu um sentimento (não batam em mim!): quero que a Argentina derrote o Brasil, quarta-feira, no Mineirão.

Quero mais: tomara que o Brasil não se classifique para a próxima Copa.

Pra quê?

Para acelerar o fim de uma ilusão: a de que a Seleção Brasileira de futebol ainda é parte importante de nossa cultura.

A Seleção é (e não de hoje) assunto privado da CBF. Ricardo Teixeira é o dono, Dunga, o gerente. E o resto que se dane.

Sou a favor de gestões profissionais. Porém, no caso da Seleção, em virtude do vínculo cultural que a unia ao povo, os dirigentes, a comissão técnica e os jogadores, tinham, antes, o hábito e a obrigação de dialogar com a população, via mídia.

Contudo, em 1978, adotamos um estilo grosseiramente importado da Europa; isso se repetiu em 1990 e 1994. E ocorre novamente agora. Com essa importação, que é afrontosa à nossa escola, morreu o diálogo. Como o povo não gosta desse estilozinho insosso, a única solução encontrada pela CBF é mandar o povo chupar prego.

Esse recado está nas entrelinhas da hostilidade com que Dunga trata os jornalistas. É verdade que há maus jornalistas, que muitas vezes fazem perguntas e observações grosseiras ou simplistas. Mas, se houvesse a disposição de dialogar, em vez da rispidez generalizada, haveria as críticas dirigidas.

Dunga é um homem com uma placa na testa: "Não se metam no meu trabalho, seus intrometidos". Nessa história de Seleção, o povo e a cultura brasileira estão sobrando.

Sou a favor do contato e do aprendizado intercultural. Sou a favor do enriquecimento do nosso futebol por meio da assimilação seletiva de características de outras escolas. Quem não invejou o carrossel holandês, a disciplina alemã, o pragmatismo italiano, o passe e a agressivadade argentina?

Quem hoje pode ser contra a preparação física, as cautelas defensivas, a velocidade, as jogadas ensaiadas, a disciplina tática?

No entanto, será mesmo preciso abandonar o talento individual para incorporar essas outras virtudes? O futebol brasileiro fenece quando adota a ideologia do "professor mandou".

Cadê a irreverência e a iniciativa individual? Cadê o Brasil? É isso a globalização do futebol? Que lógica burra é essa que nos transforma em saco de pancada de Venezuela e Paraguai?

Tá na hora de esse timinho ser reduzido ao seu tamanho: o de um grupinho de jogadores sem personalidade dirigido por burocratas incompetentes.



Escrito por mscudder às 14h17
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É o quê, hein?

 

Não gosto de Dunga, como treinador da Seleção; tampouco de Ricardo Teixeira, como presidente da CBF. Sei que o fracasso de ontem, diante do Paraguai, pode e deve ser, em boa medida, ser atribuído a eles. Mas que dizer dos jogadores?

Tino Marcos disse, no Globo esporte, que o Brasil não mostrou o seu futebol envolvente. Seria melhor chamar de futebol envolvido, guardado, escondido, subdesenvolvido. Se nada do que o treinador planejou deu certo, por que não inventar? Por que insistir, até o fim da partida, num joguinho monótono, irritante, insípido, inócuo?

Era Brasil e França de novo? Temos um bloqueio contra seleções tricolores, em azul, vermelho e branco? Ou o de ontem foi o mesmo futebolzinho suficiente para derrotar o Canadá e não a Venezuela? E o mesmo que o time apresentou nos outros jogos da Copa?

Não vai nada na conta dos jogadores – tecnicamente medíocres, taticamente inoperantes? O Paraguai é um bom time, é o líder das Eliminatórias da América do Sul; porém, não é possível jogar nem um pouquinho melhor contra eles? Se Dunga não é um grande técnico (até um dia desses, nem técnico era), os jogadores não podem compensar um tantinho dessa baixa estatura técnica e tática do treinador? Ou fala mais alto, nessas horas críticas, o silêncio subserviente, o robotismo, a falta de personalidade dos nossos jogadores?

Ou o problema dos nossos jogadores é menos falta de atitude e mais falta de futebol?



Escrito por mscudder às 13h55
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De O livro de aforismos de Jamie P. Dawson

Inventar uma história é reinventar o mundo.



Escrito por mscudder às 13h36
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Todavía no

 

Ontem, após a partida com o Boca, Washington teria dito: "pintou o campeão".

Pintou o salto alto, então?

Antes de ler essa pérola, prévia de outros maracanaços, eu já havia falado que a vantagem psicológica da final seria da LDU. Por quê?

Porque o Flu eliminou São Paulo e Boca, talvez os dois times mais fortes da competição. Numa situação dessas, é natural um certo alívio. E, no caso de times brasileiros, talvez mais ainda dos cariocas, um certo já-ganhou é quase inevitável.

E parte da mídia esportiva do Rio adora esse oba-oba. Antes do jogo, o ótimo Cicero Melo, da ESPN Brasil, deixou escorregar que, depois do Boca, o caminho do Flu era Tóquio. Sem dúvida, mas não o caminho direto. No meio tem a LDU...

A LDU, por sua vez, passa a ser o time da superação. O Flu já bateu seus grandes adversários; a LDU agora irá enfrentar o seu.

Essa é a hora de Renato e todo o time mostrarem que realizam um trabalho consistente, capaz de derrotar a euforia e a falsa sensação de missão cumprida.



Escrito por mscudder às 12h01
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Uma prisão chamada Venezuela?

 

Há mais de um ano, critiquei duramente a posição de Chávez de não renovar a concessão de uma grande emissora de TV venezuelana.

Não se tratava de defender a emissora, mas sim de me opor ao casuísmo da medida. Chávez alegava golpismo da empresa midiática; no entanto, esse era apenas um argumento de ocasião, pois o próprio presidente é um histórico aplicador de golpes políticos.

Tentou, na década de 1990, tomar o poder à força; uma vez eleito, tratou de submeter Judiciário e Legislativo e postergar (ao infinito?) o seu mandato.

Agora, cria novas regras de vigilância política contra a população, segundo as quais quem não dedurar os opositores do presidente serão também considerados criminosos.

Chávez subornou uma parte do povo à base de medidas distributivas que desorganizam a economia e comprometem o desenvolvimento da Venezuela, bem como de uma retórica guerreira (espero que seja só retórica).

Muita gente aplaudiu o fechamento da emissora. Mas o cala-a-boca de Chávez não tem limites e cedo ou tarde se voltará contra seus antigos entusiastas.



Escrito por mscudder às 11h41
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Essas compensações não compensam

 

As cotas servem para reparar?

No caso dos negros, a escravidão? Dos índios, o extermínio étnico? Das mulheres, o machismo?

Por que, então, não reparar a miséria?

A pobreza extrema, geração após geração, é menos grave que a escravidão?

A pobreza extrema, no Brasil, não atinge somente negros, índios e mulheres. E a pobreza extrema é mais uma das iniqüidades (talvez a pior) da nossa sociedade.

Ontem, o IBGE publicou pesquisa que reafirma os dados segundo os quais os homens adultos são os que mais sofrem com as lesões e óbitos causados por acidentes de trânsito e violência armada.

Isso não é uma iniqüidade? Não merece reparação?

Todas as vezes que um grupo se vê numa situação de perigo, provocada ou não por outras pessoas, quem corre os maiores riscos, na maior parte das vezes, os homens ou as mulheres? Os homens entre 15 e 45 anos, ou os idosos e as crianças?

Esses homens, que se arriscam em prol da segurança do grupo, não merecem que o grupo lhes dê compensação?

E a Polícia Militar, que atua na linha de frente do combate ao crime, inclusive os de maior periculosidade, não é composta por ampla maioria de homens? Eles arriscam suas vidas e sofrem lesões graves e mutilações. Não merecem reparação?

E os lavradores brancos da região Sul, que trabalham de sol a sol e cuja pele é particularmente vulnerável ao câncer, também não sofrem iniqüidade e também não precisam de reparação?

E os homens pobres, de baixa qualificação, que se afundam no álcool, porque não conseguem realizar o ideal defendido por seu pai e sua mãe e por grande parte da sociedade, de acordo com o qual eles, homens pobres, deveriam ganhar o suficiente para prover o sustento de suas famílias? Não merecem igualmente uma compensação?

E os nordestinos da seca? E os caboclos da Amazônia?

Que tal parar com essa competição para saber quem é mais vítima e fazer um país de cidadãos?

Não sou contra a focalização, ou seja, a atenção a grupos e segmentos que sofrem iniqüidades específicas. Mas 1) a prioridade é melhorar a vida de todos, como cidadãos; 2) quase todos os brasileiros podem ser incluídos em grupos ou segmentos que sofrem graves iniqüidades específicas.

As cotas, que privilegiam a compensação para certos grupos ou segmentos, é um novo privilégio, uma outra forma de furar a fila, de incluir seletivamente, em vez de se optar pela inclusão de todos.

Em outros termos, é o velho corporativismo, ou seja, a ação de uma "corporação" à cata de benefícios específicos, despreocupada do restante da sociedade. Quando citei as crianças pobres de minha rua, denunciei que o movimento por cotas raciais não tem nenhum escrúpulo de jogá-las para o fim da fila e dar uma mãozinha para uma parte dos negros, de maneira parecida como faz o velho clientelismo e o nepotismo, que diz: para os amigos, tudo, para os outros... Ora, os outros que se danem, tô mesmo é preocupado com a minha corporação, minha clientela, minhas vítimas, mais vítimas que as outras etc.

Chega dessa ilusão de que o Brasil é dividido em dois segmentos: os brancos adultos heterossexuais exploradores e opressores versus os negros, índios e mulheres explorados e oprimidos.

Autoridade pública existe para ver o todo, em vez de se deixar capturar por grupos ou segmentos.

O Brasil não pode ser mais equânime, mais justo? E as mudanças, que o IBGE aponta, que fizeram a desigualdade diminuir significativamente nos últimos 15 anos? Não podemos acelerar esse processo?

Claro que sim.

Partir para cotas e outros privilégios é meramente confessar o fracasso em construir uma vida melhor para todos.

E eu acredito nesse sucesso.



Escrito por mscudder às 18h19
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Socorro, Phill Palmer (2)

 

Sexta passada, entre chopes e espetinhos, ao lado de Rosinha e Davi, vi um caminhão de lixo estacionar próximo ao restaurante.

Fiquei apreensivo com a perspectiva do mau cheiro. Davi exultou – como boa criança de dois anos, é um aficionado de trens, aviões e caminhões de lixo.

Os lixeiros eram todos homens.

Onde estavam as mulheres?

Segundo minha mulher, em casa, cuidando dos filhos.

Porém, muitas delas não teriam problema de terceirizar o cuidado dos filhos por um emprego de maior prestígio.

Há alguns dias, tomei conhecimento de uma sugestão de PEC, ainda não assumida por nenhum parlamentar, que destina 30% das vagas do parlamento a mulheres.

Fiquei pensando: se alguns consideram justo aumentar a participação das mulheres, via cotas, nos empregos e cargos tidos como nobres, por que não aumentar a sua participação nos empregos e cargos tidos como rudes?

Tem-se como óbvio que as cotas femininas no parlamento beneficiam as mulheres. E por que não se tem como óbvio que as cotas femininas no serviço de limpeza beneficiam os homens?

Por que só pensar no bem das mulheres?

Talvez muitos homens prefiram ficar às sextas à noite em casa, cuidando dos filhos, enquanto suas mulheres se agarram a uma haste de caminhão de lixo.



Escrito por mscudder às 09h15
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De a a u

 

Hoje sou Flu, contra o Boca.

Por quê?

Ora, ao lado do argentino, o nosso futebol é o melhor do continente. No entanto, temos pouquíssimos títulos.

O Uruguai tem 8 conquistas continentais e o Paraguai tem 3, ambos à base de muita roubalheira e violência. Torço para que, dos próximos dez torneios, uns 6 ou 7 sejam brasileiros.

Torço também pelo Renato Gaúcho. Tá na hora de seu bom trabalho como treinador ser mais respeitado.

Se o Flu não passar, aí sou Boca. E outro show de Riquelme numa final de Libertadores não seria nada mal.



Escrito por mscudder às 08h41
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Inversão

 

A tremenda desigualdade econômica e social do Brasil é um de nossos maiores fracassos. Por isso, os programas sociais do governo federal merecem todos os elogios, ainda que possam ser aperfeiçoados e ampliados.

A popularidade de Lula é justíssima; não é justo, entretanto, que o governo e sua base no Congresso se valham dessa popularidade para praticar desmandos.

O último é o abortamento da CPI dos cartões corporativos, sobretudo da investigação sobre a montagem e divulgação do dossiê FHC-Ruth Cardoso. Setores da oposição também botaram panos quentes: o que querem esconder? O que negociam por baixo dos panos?

Talvez a pizza do dossiê faça bem à "classe política", por ocultar seus lances de dados mais vergonhosos, mas é bem indigesta à República.

E, nessas horas, tem sempre muita gente dizendo que as questões de moralidade pública são irrelevantes diante dos benefícios gerados pelas políticas de distribuição de renda. Seria uma nova versão do "rouba (ou mente ou manipula) mas faz (ou dá)"?



Escrito por mscudder às 10h32
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Longuíssima do Sparagmós

 

Na disputa pela aprovação da CSS, fica evidente a deterioração das relações entre Executivo e Legislativo.

O padrão adotado por Lula no primeiro mandato, à base do suborno de parte do baixo clero, ruiu com o escândalo do mensalão. No segundo mandato, sua maioria parlamentar é mais apertada, sobretudo no Senado.

A derrubada da CPMF no Senado, em dezembro último, constituiu-se numa vitória-símbolo da oposição. O que ela simboliza? O recado ao governo, especialmente do DEM e do PSDB, de que o jogo ficou mais duro. E, se Lula é o presidente dos pobres, eles são o partido da classe média e do combate à ineficiência. E, como Lula não pode prescindir do apoio da classe média...

Por isso o DEM e o PSDB não podem recuar na questão da CSS: estariam abdicando de uma de suas únicas fontes de popularidade.

No Senado, a oposição jogou pra galera, quando aumentou as verbas pra saúde sem indicar as fontes e deixou o governo entre a cruz e a espada – agora ele tem que optar entre o ônus de rejeitar a regulamentação da Emenda 29 ou instituir novo tributo.

Na Câmara, o governo tenta passar o rolo compressor. E, fora do Congresso, a população, mal compreendendo, assiste ao acirramento da disputa e, aqui e ali, toma partido sem a devida ponderação.

Na minha opinião, tem razão quem diz que esse debate deveria ser travado, não como matéria isolada mas sim como parte da reforma tributária, com mais clareza e menos incitamento à rebeldia sem causa.

Um tributo sobre movimentação financeira tem inegáveis vantagens, como atingir a todos os segmentos (inclusive o crime organizado) e favorecer a fiscalização do uso do dinheiro público. No caso da CSS, tem a vantagem adicional de se constituir num financiamento permanente e específico para a saúde.

Mas, sem dúvida, a aprovação de um tributo a mais e ponto final é inaceitável. O governo sinaliza com a mudança nas regras do Imposto de Renda e com a desoneração da cesta básica. No entanto, assim, de última hora, sem a necessária discussão, fica difícil para a população aceitar.

Não seria melhor adiar a votação da regulamentação da Emenda 29?

Nesse clima de ultra-acirramento, faz muita falta um grupo parlamentar capaz de recuperar um mínimo de diálogo entre governo e oposição. PDT, PMDB, PSB e PC do B poderiam desempenhar esse papel. Porém, esses partidos, no momento muito preocupados em atrair para si a popularidade de Lula, mantêm uma postura muito seguidista em relação ao governo e acabam copiando as posições do PT, quando poderiam desempenhar um ótimo papel no sentido de aperfeiçoá-las.



Escrito por mscudder às 10h16
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BRASIL, Centro-Oeste, NUCLEO BANDEIRANTE, SETOR DE MANSOES PARK WAY, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Livros, Esportes

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